Estudo realizado no Centro de Pneumologia da Faculdade de Medicina e no Serviço de Imunoalergologia dos HUC provou a existência de uma participação global de todo o sistema imunitário assim que a pessoa entra em contacto com um alergénio, desfazendo a teoria até agora aceite de uma resposta local inicial e outra celular mais tardia. Conclusões da investigação vão permitir desenvolver novas estratégias e perspectivas de tratamento.
O processo de reacção alérgica até agora aceite é descrito em duas fases: uma resposta inicial nos primeiros minutos após o contacto com o alergénio (substância que provoca alergia) e outra resposta mais tardia, várias horas depois, que se caracteriza por uma infiltração celular que perpetuava a inflamação. O estudo “Dinâmica de inflamação alérgica e de imunoterapia específica. Contribuição para o seu estudo in vivo”, levado a cabo por Celso Pereira, médico imunoalergologista e investigador do Centro de Pneumologia da Faculdade de Medicina da Universidade de Coimbra (FMUC), demonstrou que, na realidade, o envolvimento de todo o sistema imunitário inicia-se muito precocemente e decorre em simultâneo à actividade inflamatória localizada.

«Até agora todos os estudos tinham sido realizados tendo em conta a descrição clássica da reacção alérgica pelo que tinham sido pensados para mostrar a validade dessa teoria em parâmetros sectorizados, enquanto se tratava de uma resposta global para a qual era preciso uma visão de conjunto», explica Celso Pereira, que desenvolveu o estudo que foi a tese de Doutoramento que apresentou à FMUC.
A informação decorrente desta investigação pode agora permitir o desenvolvimento de novas estratégias e perspectivas de tratamento das alergias, nomeadamente a necessidade de implementação de linhas de investigação farmacológicas mais electivas, recentrando a função charneira da medula óssea no tratamento. «Estou convicto de que o tratamento das alergias irá passar futuramente por soluções mais centrais, nucleares, que permitam ir ao início do problema», afirma Celso Pereira, esclarecendo que já está actualmente, com a sua equipa, «a trabalhar no desenvolvimento e utilização de novos extractos de alergénios que possam actuar especificamente nas células no sistema imune central, aumentando assim a eficácia da imunoterapia e diminuindo os efeitos adversos destes tratamentos».
Para o estudo em causa, foram seleccionadas – através do Serviço de Imunoalergologia dos Hospitais da Universidade de Coimbra – cerca de 45 doentes, que integraram um grupo de doentes alérgicos que não estavam a ser tratados, um grupo de doentes alérgicos que estavam a receber vacinas de imunoterapia e um grupo de controlo. Foi recolhido sangue de cada doente e procedeu-se à marcação dos glóbulos brancos com um radiofármaco, o que permitiu, depois dos glóbulos brancos serem reinjectados no doente ao mesmo tempo que era criada uma reacção alérgica, acompanhar a resposta do sistema imunitário quando confrontado com o alergénio.
Verificou-se após alguns minutos a seguir à provocação alergénica, para além da actividade inflamatória no local da provocação, uma actividade radioactiva precoce no sistema imune central, nomeadamente na medula óssea e no pescoço (tecido funcional tímico), tendo ainda sido comprovada a actividade inflamatória em áreas relativas ao tecido imune secundário mucoso, designadamente pulmão, intestino, mediastino e estruturas vasculolinfáticas cervicais. A actividade inflamatória reportada nestas localizações, dependente de recirculação celular, revelou um incremento ao longo das 6 horas de observação, o que permitiu concluir que há uma participação global de todo o sistema imune no decurso da reacção alérgica mesmo com dose reduzida de alergénio.
Para além da vertente humana, a investigação foi ainda realizada em ratos, divididos também em vários grupos. Foram obtidas e analisadas amostras biológicas de sangue venoso, de estruturas ósseas e de estruturas ganglionares em diferentes momentos após indução de provocação alergénica. Os resultados obtidos provaram também a existência de estruturas centrais que regulam precocemente a resposta imunológica.
Este estudo contou com a colaboração activa do Serviço de Medicina Nuclear dos HUC, do Instituto de Biofísica-Biomatemática da FMUC e do Centro de Histocompatibilidade do Centro.