A Ribeira do Candal, na Serra da Lousã, vai ser palco, dentro de poucos meses, de uma experiência pioneira e única na Europa para prever os efeitos do aquecimento global nos rios: a manipulação da temperatura da água ao longo de um troço de 22 metros.

Para o efeito, a ribeira foi já dividida através de uma barreira longitudinal. Será testado o aumento da temperatura em metade do curso, em cerca de 5 ºC, acima da temperatura ambiente da água observada na outra metade, com recurso a um “termoacumulador gigante” construído propositadamente e o sistema será instrumentalizado com sensores de temperatura, nível e caudal ligados, por wireless, a um controlador.
A fase de aquecimento assinala o início da segunda fase do projecto “Previsão dos efeitos do aquecimento global na biodiversidade e funcionamento dos ecossistemas ribeirinhos” (http://www.ci.uc.pt/imar/ribeiras/), em curso desde 2008. Coordenada pela investigadora Cristina Canhoto, a investigação é financiada pela Fundação para a Ciência e Tecnologia (FCT) e envolve uma equipa multidisciplinar da Faculdade de Ciências e Tecnologia da Universidade de Coimbra (FCTUC) – investigadores do Instituto do Mar e Ambiente e dos Departamentos de Ciências da Vida, Engenharia Civil e Engenharia Electrotécnica – e tem a colaboração de uma dezena de investigadores de Universidades estrangeiras (Canadá, EUA, Espanha, Reúno Unido, Suécia, Suíça) e da Universidade do Minho. É também parceira no projecto a Câmara Municipal da Lousã.
Na primeira fase (em conclusão) regista-se um meticuloso trabalho de avaliação da diversidade biológica actual na ribeira: que fungos aquáticos, invertebrados e algas existem na ribeira, em que quantidade? Como são as histórias de vida e o comportamento de alguns grupos de invertebrados? Mas, mais do que isso, os investigadores procuram saber como funciona o ecossistema, particularmente as taxas de reciclagem de nutrientes: para isso estudam a decomposição das folhas que são uma importante fonte de energia e nutrientes dos ribeiros. Neste processo intervêm grande parte dos organismos aquáticos pelo que a degradação foliar constitui uma ferramenta útil para avaliar o estado ecológico dos cursos de água, uma excelente “radiografia”do que se passa na ribeira do Candal.
Agora, com esta original experiência para avaliar os potenciais efeitos do aquecimento global nos recursos aquáticos, os investigadores pretendem “adquirir informação sobre os efeitos do aumento da temperatura da água nos mais diversos aspectos da vida ribeirinha, p. ex., se haverá extinção de algumas espécies, se as espécies resistentes vivem mais ou menos tempo, se desempenham de forma eficiente o seu “papel” no ecossistema, e em que medida essa nova realidade afectará o ecossistema”, afirma a investigadora da FCTUC.

Considerando que os processos vitais, garante da biodiversidade do sistema, são “muito sensíveis à temperatura, prevê-se que a biologia destes cursos de água venha a ser alterada pelo aumento da temperatura global (até um máximo de 6/7 ºC nos próximos 100 anos), mas é necessário saber como. De facto, os efeitos poderão reflectir-se no bem-estar, saúde e economia das populações: tanto podemos ter uma degradação da qualidade da água que consumimos como um aumento da produtividade de organismos aquáticos incluindo os peixes”, assevera Cristina Canhoto. O grande manancial de informação a fornecer pelo estudo será muito útil para o desenvolvimento de estratégias para uma correcta gestão e preservação dos cursos de água.
Fonte de Informação:
Faculdade de Ciências e Tecnologia da Universidade de Coimbra